segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

RESSACA MATINAL

As sobras do dia de ontem
Estão espalhadas por todas as partes.
Mas pouco me lembro da noite passada.
Apenas meu corpo
Guarda fisicamente os registros
Dos meus exageros.
É como se  tivesse bebido
Um pouco do próprio tempo,
Quebrado um pouco a suposta eternidade
Que aparentemente enfeita todas as coisas.
Por hora tudo que preciso
É de forças para arrumar a bagunça,
Para esperar outras noites
De risos , fantasias

E errantes alegrias. 

POEMA DE CARNE E OSSO

Ignoro a verdade das coisas.
Estou farto de todos os filósofos
E dos delírios teológicos.
O mundo é simples,
Palpável e intenso
E cabe dentro do meu corpo,
Do copo, do quarto,
E das pequenas coisas ditas
Antes da hora do jantar.
Não me tragam nenhum juízo.
A noite é quente e surda
E cabe na arte de beber,

Comer e sonhar.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

AGONIA LÍQUIDA

Entre o dia e o sono
Embriago-me contra todas as coisas,
Contra os hiatos da existência
E os silêncios da vida.

Brindo a todos os meus defeitos
Através do raso da poesia.
Meus versos são como cacos de vidro.

Espero a noite que me fará
Em pedaços,
Minhas ultimas palavras
Diante do naufrágio de todo significado.
Sou feito das paixões do vento.
Abram por favor,

Mais uma garrafa.

domingo, 20 de dezembro de 2015

UM POUCO DE FEIJÃO


O cheiro do alho fritando para temperar o feijão.
Eu tinha fome só de sentir aquele cheiro.
E a vida ia seguindo no preparo de um pouco de feijão preto.
Nada mais do que isso.
As coisas iam acontecendo no desacontecimento
De mim mesmo.
Precisava comer e superar a ressaca.
Jogar o lixo fora
E alguns sentimentos também.
Tudo que importava era não prestar atenção na vida,
Comer um pouco de feijão
E não morrer de fome,
Continuar respirando contra os fatos

Até o dia em que isso não for mais possível.

sábado, 19 de dezembro de 2015

A QUEDA

Já era quase meio dia
Mas eu ainda anoitecia.
A vida perdia o rumo
Em cada gole,
A cada trago.
Tentava  não me perder
Nas imaginações e venturas
Das emoções desregradas,
Buscava soltar sobre o abismo.
Mas eu não voava,
Eu caia...
E havia muita poesia

Naquela queda infinita.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

O NIILISTA


Desde cedo eu sabia
Que não era feito do que eu queria,
Mas de tudo aquilo que me faltava
E nem mesmo eu sabia.
A gente vive explorando silêncios,
Cavando o rosto
Ou, de algum outro modo,
Se enganando com os fatos
E tropeçando nos atos.
Muito cedo me tronei niilista,
Joguei no lixo todas as verdades
E plantei abismos no caminho.

Até hoje nunca me arrependi disso.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

ANOTAÇÕES AUTOBIOGRÁFICAS DE UM VAGABUNDO II

Eu havia me habituado a ficar sozinho. Afinal, esta era uma condição para não se fazer nada. Podia ficar deitado o dia inteiro, enterrado em mim mesmo tipo um morto vivo sem que qualquer pessoa me enchesse o saco por isso.

Era ótimo ficar prostrado e, as vezes, cochilar e sonhar um pouco. Sempre sonhava com uma realidade melhor e sem paralelos onde as paisagens tinham um gosto de antigamente. Mas quem ainda pode entender isso?

O fato é que meu oficio mais caro era não fazer absolutamente nada. Apenas deixava o tempo passar e pensava na morte.  Claro que morreria um dia. Eu ficava tentando antecipar como seria. Fazia disso uma espécie de loteria. Pensava em atropelamentos ou em morte natural e prematura. Um enfarto fulminante, talvez, antes dos cinquenta anos. Mas provavelmente conseguiria  avançar mais um pouco, apesar do cigarro.

Ficar sozinho e sem fazer nada acordava a imaginação. De certa forma as minhas inércias sempre eram muito produtivas. Mesmo que não me levassem a lugar nenhum. Mas nada leva a lugar nenhum. Só os idiotas não sabem disso.

Mas eu ficava deitado o tempo todo que podia porque, absolutamente, não tinha para onde ir. Poucos homens tem realmente um destino, um objetivo alcançável e satisfatório. A maioria vive da porcaria das rotinas sem sentido e se matam para ganhar dinheiro que só dá dor de cabeça pra ser gasto e sustentar uma infinidade de contas e despesas asquerosas.

Era melhor ficar parado, ali, sem fazer nada e esperando a morte.