terça-feira, 24 de março de 2026

CONTRA A BUROCRACIA

Não  quero ser cadastrado,
 reduzido a  um número
e convertido a dado de arquivo.

Prefiro permanecer sem registro,
ser um desconhecido,
invisível ao Estado
e acessível, apenas,
a alguns bons amigos.

Não  serei anulado,
apagado e esquecido,
em qualquer caixa,
processo ou gaveta.

Não  permitirei que meu corpo
seja catalogado, classificado e calado.








 

segunda-feira, 23 de março de 2026

CORPO E INDISCIPLINA

Meu corpo  não é lugar de rotinas, 
mas de indisciplinas. 
É espaço de rebeldias, 
 resistências e teimosias.

 Meu corpo é sujeito, objeto e, 
também, Fantasia.

É vida, morte, agonia e protesto
entre o gozo, a dor, a melancolia e o incerto.

Meu corpo é
um lugar fora do mundo
onde se perde o pensamento
na fome do que é material e concreto. 

Sua nudez é  um manifesto.








sábado, 7 de março de 2026

A FOME

A fome é a  máxima expressão da necessidade
que nos liga a natureza.

Ela é o que nos move,
o que nos sustenta
na fronteira do dentro e do fora.

A fome ensina que o corpo não  basta a si mesmo,
que somos parte de um mundo
e que pouco importa nossa suposta humanidade ou atroz vaidade.

A fome é  tudo que nos devora em segredo,
é o deserto concreto  da necessidade. 






sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

A ARTE DE INVENTAR-SE

Nasci preso a uma raça, gênero e classe, condenado a um trabalho e a uma vida de necessidades.
 Apesar disso, cresci buscando liberdade
 as margens do tempo e da grande cidade.

 Minha existência é experiência de resistência, 
semente de futuras insurgências.

Viver é  a arte de reinventar-se 
contra todas as contingências.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

TALVEZ UM DIA EU JUNTE UM BANDO

Talvez um dia eu  junte a um bando
para defender alguma causa perdida.
Ele nunca se tornará  um partido, 
uma igreja ou coisa parecida.
Será apenas uma pequena sociedade entre desiludidos, desocupados e niilistas.
Um bando de  desajustados e descrentes
 buscando outras formas  de vida
ou, simplesmente, socializar frustrações e melancolias.
Talvez um dia eu junte um bando
contra todos os rebanhos para cultivar pequenas anarquias.
Talvez um dia esse bando invente um lugar,
produzindo encontros que reinventem pessoas, tempos e sentimentos,
nos permitindo radicalmente sonhar.


terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

APOSTE NA RAIVA

Jamais escuto os inteligentes,
prudentes e sábios. 
Prefiro a ousadia dos delinquentes,
indecentes e sátiros.

Gosto dos debochados,
 dos marginalizados,
dos que fogem a norma,
dos que não  tem papas na língua,
dos que confrontam e nunca se conformam.

Grandes  mudanças, afinal, 
nunca  nascem do diálogo
ou do papo manso dos especialistas.

Por isso, não acredito na boa fé dos opressores, 
no discurso rebuscado dos eruditos,
nem peço  paciência aos inconformados.
Aposto sempre nos desesperados e desesperançados,
nos que nada tem  a perder
e apostam em sua raiva com fome de vida.






terça-feira, 27 de janeiro de 2026

A RADICALIDADE DA EXISTÊNCIA


 

Não me basta apenas trabalhar,
ter o que comer, vestir e um lugar para morar.
Sei que não  nasci para servir, 
obedecer e produzir.

Quero ser dono do meu próprio tempo,
do meu corpo e consciência.
Quero a vida por inteiro,
provar toda  radicalidade da existência. 

Quero transgredir,
reinventar o significado da palavra liberdade
através do devir do corpo e da consciência. 

Quero descobrir todos os mundos
que me sonham dentro do mundo 
transcender racionalismos e humanismos
através da vertigem de ser Único.




domingo, 25 de janeiro de 2026

NOSTALGIA

Sinto falta das coisas pequenas
e maltratadas,
do cotidiano fútil,
da vida periférica e modesta,
da fatalidade de  um dia  de sol.

Sinto falta de ser normal,
das frutas na feira, da TV, do Rádio,
da minha mãe lavando roupa no quintal.

Sinto falta da criança que fui um dia
e morreu tão prematura diante das brutalidades
 de um mundo marcado por desigualdades e opressões.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

DESIGUALDADE

A desigualdade é uma cultura,
um hábito, uma gramática,
baseada na diferença,
socialmente estabelecida,
entre eu e o outro.

A desigualdade é a normalização 
da exploração,
a estratificação da injustiça social.


A desigualdade é tudo aquilo
que está no meio de nós
 sustentando o privilégio de poucos
frente a necessidade de muitos.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

DESERÇÃO NIILISTA

Não vejo notícias no telemóvel.
Não me embriago de fatos,
nem reduzo o real a espetáculo.

Não quero saber de tudo,
ter respostas na ponta da língua
para os dilemas e absurdos da humanidade.
Não tenho qualquer pretensão 
a salvador do mundo
 ou ser um herói aos olhos da  sociedade.

Afinal, não sou branco,
moderno ou moderado.
Não acredito no Estado,
no poder ou na sabedoria
de antigas escrituras
 ou grandes tratados.

Sou um simples desertor da humanidade,
um niilista avesso a lei, a ordem e a verdade,
sonhando com o alívio de uma grande e inevitável desastre
que ponha , de uma vez por todas,
um fim a era da razão,
 do poder e da ambição de uns poucos afortunados.